A arte de deixar ir
Eu era do tipo que segurava tudo. Mágoa, expectativa, esperança. Pessoas que já tinham ido embora. Versões de mim que não existiam mais. Futuros que nunca iam acontecer.
Segurava porque achava que soltar era desistir. Que enquanto eu ainda estivesse segurando, ainda tinha chance de dar certo.
Mas não é assim que funciona.
Tem coisas que a gente precisa soltar não porque são ruins, mas porque já cumpriram o papel delas. Relacionamentos que ensinaram o que tinham pra ensinar. Amizades que fizeram sentido em outra fase. Sonhos que eram de uma versão sua que não existe mais.
Deixar ir não é abandonar. É reconhecer que algumas coisas só pesam quando a gente insiste em carregar.
Aprendi isso aos poucos. Primeiro soltei a raiva dos ex. Não porque eles mereciam perdão, mas porque eu merecia paz. Carregar rancor é como tomar veneno esperando que o outro passe mal.
Depois soltei a expectativa de como minha vida “deveria” ser. A timeline que a sociedade inventou e que eu tinha comprado sem perceber. Namorar, noivar, casar, ter filhos — tudo nos momentos “certos”, na ordem “certa”. Como se existisse um roteiro e eu estivesse atrasada.
Soltei também a culpa. Das vezes que errei, das vezes que fiquei quando deveria ter ido, das vezes que machuquei sem querer. Não dá pra mudar o passado. Dá pra aprender com ele e seguir.
A parte mais difícil foi soltar a versão idealizada de mim mesma. A mulher que eu achava que deveria ser. Perfeita, resolvida, sem contradições. Ela não existe. Nunca existiu.
Sobrou eu. Real, imperfeita, cheia de rachaduras.
E sabe o que eu descobri? Que com as mãos vazias, eu finalmente tinha espaço pra segurar coisas novas.
Ana Jú