Aprender a gostar da própria companhia
Aprender a gostar da própria companhia não foi um romance. Foi treino.
Eu sempre fui funcional sozinha. Trabalhar, resolver, seguir. A vida andava. Mas havia um ruído de fundo que só aparecia quando o dia terminava e o mundo silenciava. Eu sentia o impulso de preencher qualquer intervalo: mais uma mensagem, mais um vídeo, mais uma distração. Não era solidão. Era dificuldade de estar comigo sem fuga.
Demorei pra perceber que ficar sozinha é diferente de gostar da própria companhia. Ficar é o estado padrão. Gostar é escolha, é presença.
Aprender isso foi como morar numa casa nova. No começo eu só usava o cômodo principal, o que já estava pronto e organizado. Depois fui abrindo portas. Descobrindo corredores que eu ignorava. Percebendo que tinha espaço ali dentro que eu nunca tinha habitado. E, aos poucos, eu fui deixando esse lugar com a minha cara.
Quando eu virei casa pra mim mesma, ninguém mais precisou ser teto.
Foi aí que o bluebird começou a cantar. Baixinho. Sem plateia. E eu ouvi.
Teve uma noite em que eu jantei sozinha e não liguei a TV. Sentei à mesa como se estivesse recebendo alguém — e era. Eu. Peguei o tempo na minha mão e não empurrei ele pra longe. Foi simples. Foi estranho. E, de um jeito quieto, foi bom.
Hoje eu ainda gosto de barulho, de gente, de amor. Mas a minha companhia virou um lugar onde eu posso voltar e me encontrar. Não como prêmio, não como isolamento. Só como endereço.
Às vezes ainda dá vontade de correr. Ainda existe um reflexo antigo de preencher o silêncio antes que ele cresça. Mas agora eu sei que o silêncio também pode ser abraço.
Se isso te tocou de alguma forma, ou se você passou por algo parecido, me escreve: anajuliadannenhauer@gmail.com
Ana Jú