Cruzamos tantas vezes e nunca nos vimos

Quando a gente começou a juntar as peças, descobrimos uma coisa assustadora: nossos caminhos já tinham se cruzado antes. Várias vezes.

Ele passava todo dia na frente de onde eu estudava, passeando com a cadela. Eu passava várias vezes por semana na frente do apartamento dele. A gente ia pra mesma praia e ficava a poucas quadras de distância. Conhecíamos pessoas em comum — mas nunca saímos juntos, nunca fomos apresentados.

Tecnicamente, a chance de nos encontrarmos era quase nula. A gente estava ali, o tempo todo, a metros de distância. E nada.

Talvez tenha esbarrado, trocado um olhar, dividido a mesma calçada. Mas não aconteceu nada. Nenhuma faísca, nenhum reconhecimento.

Não era a hora. E acho que a gente só se encontra de verdade quando está pronto pra ser encontrado.

Fico pensando: se tivesse acontecido antes? Se a gente tivesse se conhecido quando eu tinha 23, 24 anos?

Provavelmente não teria funcionado.

A gente era diferente. Estava em outro momento. Ele tinha o próprio caminho pra percorrer, eu tinha o meu. A gente precisava virar quem a gente virou pra poder se reconhecer.

Não era a hora.

É estranho pensar assim. Que talvez exista um timing pras coisas. Que talvez a vida saiba de algo que a gente não sabe.

Não acredito em destino no sentido romântico. Não acho que estava “escrito nas estrelas”. Mas acredito que a gente atrai o que a gente está pronto pra receber. E que algumas conexões só acontecem quando as duas pessoas estão no mesmo lugar — não geográfico, mas emocional.

Aos 27, eu estava inteira. Ele também.

E aí, finalmente, a gente se viu.

Ana Jú