Dezembro
Dezembro chegou. E com ele, aquela sensação estranha de que o tempo está acabando.
Acabando pra quê, eu não sei. Mas é como se o ano inteiro viesse cobrar a conta agora. Tudo que você não fez, não resolveu, não conquistou — tudo grita mais alto em dezembro.
Por muito tempo, eu tinha uma relação estranha com esse mês.
As perguntas da família sobre planos, sobre quando eu ia “sossegar”. A pressão de estar feliz, de ter algo grande pra comemorar. A sensação de que o ano está acabando e você deveria ter feito mais.
Dezembro era um mês de balanço. E o balanço nunca parecia suficiente.
Mas uma coisa mudou nos últimos anos. Não sei se fui eu que mudei, ou se eu só cansei de deixar um mês ter tanto poder sobre mim.
Dezembro é só um mês. Não é deadline. Não é prova final. Não é tribunal.
Parei de fazer listas de tudo que eu não consegui. Parei de me comparar com a versão que eu achava que deveria ser em janeiro. Parei de tratar o ano novo como uma chance de “finalmente ser quem eu quero” — como se eu não pudesse fazer isso em março, em julho, em qualquer terça-feira aleatória.
Agora dezembro é só… dezembro. Um mês com mais calor, mais luz, mais gente na rua. Um mês que encerra um ciclo, mas que não define meu valor.
Se o ano foi bom, ótimo. Se foi difícil, tudo bem também. Não precisa amarrar com laço de presente e fingir que tudo fez sentido.
Às vezes as coisas simplesmente acontecem. E a gente sobrevive. E isso já é bastante.
Então, bem-vindo, dezembro. Dessa vez eu não estou te temendo.
Ana Jú