Dizer não sem culpa
Meu não costuma vir acompanhado de um parágrafo.
Eu agradeço, explico, peço desculpa, explico de novo. Às vezes ofereço outra data antes mesmo de saber se vou querer. Quando percebo, uma resposta simples virou uma tentativa de garantir que ninguém fique chateado comigo.
E nem era uma situação tão complicada. Era só um convite.
Tem dias em que eu gosto da ideia, gosto de quem chamou, mas não quero ir. Não aconteceu nada. Não estou doente, não tenho outro compromisso, não existe uma emergência que torne minha ausência indiscutível. Eu só prefiro fazer outra coisa. Ou ficar em casa.
É nessa hora que começo a procurar uma justificativa melhor que a verdade.
Hoje eu não quero parece pouco. Quase uma grosseria. Como se minha vontade só pudesse entrar na conversa depois de apresentar um atestado.
Já escrevi sobre a diferença entre ceder e abrir mão. Mas existe um instante anterior que ainda me pega: aquele em que eu sei a minha resposta e começo a negociar comigo mesma antes de falar. Será que custa tanto assim? Será que não dá pra fazer um esforço? Será que vão achar que eu não me importo?
Às vezes dá pra fazer um esforço. E eu faço, com vontade, porque estar com alguém também importa pra mim. O incômodo é quando digo sim e passo o resto do dia desejando que o plano seja cancelado.
Eu conheço esse alívio quando chega a mensagem desmarcando.
Às vezes eu espero que o outro cancele só pra não precisar dizer que eu não queria ir.
É meio constrangedor admitir. Principalmente porque me considero uma mulher independente. Decido tanta coisa sozinha, sustento minhas escolhas, sei do que gosto. Ainda assim, posso ficar olhando uma mensagem por vários minutos, tentando recusar um convite sem parecer menos carinhosa.
Tenho tentado responder com mais honestidade. Agradecer porque fiquei feliz de ser lembrada. Dizer que dessa vez não vou. Sugerir outro dia quando eu realmente quero outro dia.
A culpa nem sempre acompanha o raciocínio. Às vezes mando a mensagem e fico voltando à conversa, conferindo se a resposta veio mais curta, se faltou um coração, se imaginei um tom que talvez nem esteja ali.
Não sei se um dia vou dizer não sem sentir vontade de voltar atrás.
Por enquanto, às vezes ainda releio o que escrevi. Meu dedo fica parado perto da tela, com vontade de acrescentar mais uma explicação.
Depois guardo o celular.
Ana Jú