Família em dezembro
Dezembro é o mês que a gente lembra que tem família.
Não que esqueça durante o ano. Mas é em dezembro que tudo fica mais intenso. Os grupos de WhatsApp bombando pra organizar a ceia. As perguntas sobre quem vai onde, quem leva o quê, quem não se fala com quem. O peso de sentar numa mesa com pessoas que você ama, mas nem sempre entende.
Família é complicado.
A gente não escolhe. Nasce num contexto, cresce com certas pessoas, herda dinâmicas que às vezes nem percebe. E aí, um dia, você é adulta e precisa decidir o que fazer com tudo isso.
Amar a família não significa gostar de tudo que ela faz. E reconhecer os problemas não significa amar menos.
Tenho sorte. Minha família é boa. Imperfeita, cheia de ruídos, mas boa. Nem todo mundo pode dizer isso, e eu sei. Tem gente que dezembro é sinônimo de ansiedade, de ter que fingir, de aguentar coisas que não deveria aguentar.
Pra essas pessoas, eu não tenho conselho. Só reconhecimento de que é difícil. E de que escolher se afastar, quando necessário, também é uma forma de cuidado.
O que eu aprendi sobre família é que ela muda conforme a gente muda. Os papéis se invertem, as dinâmicas se ajustam, as feridas — algumas — cicatrizam. Você olha pra sua mãe e vê uma mulher, não só uma mãe. Olha pro seu pai e entende certas coisas que antes não fazia sentido.
Não fica perfeito. Talvez nunca fique.
Mas fica mais leve quando você para de esperar que seja diferente do que é. Quando aceita as pessoas como elas são, não como você gostaria que fossem. Quando entende que todo mundo ali está fazendo o melhor que pode — mesmo que o melhor de alguns seja bem ruim.
Dezembro me lembra disso. De que família é escolha contínua. De que estar presente é um ato, não uma obrigação. De que a gente pode amar de longe quando precisa, e de perto quando consegue.
E de que, no fim das contas, a mesa de natal é só uma mesa. O que importa é o que você constrói no resto do ano.
Ana Jú