Nunca senti que precisava
Tem uma coisa que as pessoas perguntavam muito quando eu estava solteira.
“Você não sente falta?” “Você não quer encontrar alguém?” “Você não tem medo de ficar sozinha?”
Cada pergunta carregava o mesmo pressuposto: estar solteira era um estado de falta. Uma sala de espera. Um antes de alguma coisa melhor.
Nunca soube como explicar que não era assim.
Não era que eu estava “curtindo a liberdade” ou “focada em mim mesma” — essas frases que soam como consolo disfarçado. Não estava no modo de espera, contando os dias até alguém aparecer. Não estava me curando de nada nem me preparando para algo.
Estava vivendo. E isso era suficiente.
Estar solteira não era um problema que eu precisava resolver. Era só como a minha vida era naquele momento. E minha vida estava boa.
A pressão vinha de fora, nunca de dentro. Amigos preocupados. Família perguntando. Aquela narrativa de que uma mulher de vinte e poucos anos deveria estar, no mínimo, ativamente procurando. Como se existir sem parceiro fosse uma posição temporária a ser preenchida o quanto antes.
Eu ouvia, sorria, e seguia.
Não porque estava fingindo que estava bem. Estava bem de verdade. A ideia de relacionamento simplesmente não ocupava espaço na minha cabeça. Tinha outras coisas ali — trabalho, amizades, a minha própria vida funcionando do jeito que eu queria que funcionasse.
Entendo de onde vem a preocupação. As pessoas projetam o que sentiriam no lugar do outro. Pra muita gente, estar solteira é difícil. A solidão amorosa existe e dói. Não estou dizendo que não existe.
Mas a minha solidão não era essa. Era só a solidão normal de ser humana. A mesma que qualquer pessoa sente de vez em quando, esteja com quem estiver.
Quando meu marido apareceu, eu não estava esperando. Não estava tentando. Estava apenas existindo — e de repente havia ele, fazendo parte da minha existência.
Ninguém acredita quando eu conto isso. Acham que eu estava me convencendo de que estava bem. Que era defesa. Que eu estava esperando e não sabia.
Às vezes ainda recebo perguntas assim. Eu sorrio. E não sei bem como explicar que nunca precisei ser convencida de que estava bem.
Eu estava.
Ana Jú