O silêncio confortável de quem não precisa preencher o vazio

Tem gente que entra numa sala quieta e a primeira coisa que faz é ligar alguma coisa. TV, música, podcast. Qualquer barulho serve. Como se o silêncio fosse uma falha que precisa ser corrigida.

Eu já fui assim.

Não por ansiedade, nem por solidão. Mas porque o silêncio tinha essa mania inconveniente de me colocar de frente comigo mesma. E durante muito tempo, eu não queria essa reunião.

O barulho era escudo. Enquanto tinha algo tocando, eu não precisava ouvir o que estava dentro. Pensamentos, medos, perguntas que eu não sabia responder. Se o volume estava alto o suficiente, eles ficavam quietos. Ou pelo menos eu fingia que ficavam.

Aí um dia — não sei exatamente quando — eu parei de precisar.

Não foi uma decisão. Não acordei e pensei “hoje eu vou aprender a gostar do silêncio”. Foi mais como perceber que, em algum momento, o café da manhã já não tinha trilha sonora. Que o carro às vezes ficava mudo e eu nem notava. Que eu podia sentar no sofá sem fazer absolutamente nada e aquilo não era desconforto.

Era descanso.

O silêncio deixa de assustar quando você para de ter medo do que ele mostra.

Hoje eu reconheço silêncio confortável de longe. É o silêncio de quem não precisa provar presença. De quem consegue estar com outra pessoa sem performar interesse. De quem sabe que ficar quieto junto é uma forma de intimidade que a maioria ignora.

Com ele, o silêncio tem peso diferente. Não é ausência de assunto — é a confirmação de que nem tudo precisa virar conversa. Às vezes a gente está cada um no seu mundo, respirando no mesmo ritmo sem combinar. E isso diz mais do que qualquer declaração.

Mas o silêncio que eu mais gosto ainda é o meu. O de quando estou sozinha e não sinto falta de som nenhum. O de quando meus pensamentos podem existir sem pressa, sem competição, sem alguém pedindo resposta.

Demorei anos pra chegar aqui. Pra entender que silêncio não é vazio. Vazio é quando você está rodeada de barulho e ainda assim não se ouve.

Ana Jú