O timing do amor

Às vezes eu penso que teria dado tudo errado se tivesse acontecido antes.

Não por falta de sentimento. Não porque ele seria menos ele, ou eu seria menos eu. Mas porque existe uma diferença enorme entre encontrar alguém e estar pronta para reconhecer o que aquela pessoa representa.

A gente gosta de imaginar o amor como uma coisa forte o bastante para atravessar qualquer fase. Como se, quando fosse certo, fosse certo em qualquer tempo, de qualquer jeito, sob qualquer circunstância.

Eu não sei se acredito nisso.

Quando olho para trás e penso nas vezes em que nossos caminhos quase se cruzaram, sinto uma estranheza boa. Ele passava perto de mim. Eu passava perto dele. A vida fazia aquelas brincadeiras silenciosas de colocar duas pessoas no mesmo cenário sem entregar o encontro.

E ainda bem.

Porque talvez eu não tivesse visto. Talvez eu olhasse e passasse direto. Talvez ele também. Talvez a gente se conhecesse cedo demais, carregando coisas demais, distraídos demais com versões de nós que ainda estavam tentando entender o próprio lugar no mundo.

Às vezes não é a pessoa que está errada. É o tempo que ainda não aprendeu a sustentar aquele encontro.

Eu sei que isso pode soar romântico demais, como se eu estivesse tentando transformar tudo em destino. Mas não é isso. Não acho que havia um roteiro secreto escrito em algum lugar. Não acho que a vida ficou esperando o momento cinematográfico perfeito.

Acho só que pessoas são feitas de fases.

E algumas fases não combinam, mesmo quando as pessoas poderiam combinar.

Aos vinte e poucos, eu estava muito ocupada sendo minha. Não de um jeito triste, não fugindo de amor, não sofrendo por estar sozinha. Eu estava vivendo uma vida que fazia sentido para mim. Relacionamento simplesmente não era uma pauta. Era quase como uma língua que eu tinha parado de falar por falta de necessidade.

Ele também tinha a própria vida, os próprios caminhos, as próprias distrações.

Se a gente tivesse se encontrado ali, talvez fosse só mais uma história que não começou. Uma conversa simpática. Um quase. Uma daquelas pessoas que passam pela nossa vida sem deixar marca porque a gente ainda não tem espaço interno para notar.

Mas quando aconteceu, eu tinha espaço.

Não porque estava procurando. Não porque tinha me preparado. Só porque eu era outra. Mais inteira em alguns lugares, mais tranquila em outros, menos disposta a confundir intensidade com amor.

E talvez ele também fosse outro.

Gosto de pensar nisso sem tentar explicar demais. Tem coisas que perdem beleza quando a gente aperta até virar teoria. Às vezes, basta aceitar que antes não teria sido nosso.

Foi depois.

E depois fez sentido.

Ana Jú