Querer que desse errado porque era o que eu conhecia
É estranho admitir isso, mas tem que ser dito: quando conheci meu marido, uma parte de mim queria que ele fizesse alguma merda.
Não era consciente. Mas estava lá. Uma voz sussurrando que seria mais fácil se ele decepcionasse logo. Se fosse só mais um.
Porque eu conhecia aquele roteiro. Conhecia o sabor da decepção. Sabia exatamente o que fazer quando dava errado: levantar, sacudir a poeira, seguir. Era familiar. Era seguro, do jeito torto que as coisas conhecidas sempre são.
O que eu não sabia era o que fazer quando dava certo.
Ele aparecia. Era consistente. Queria estar ali, toda semana, sem drama, sem jogo.
E isso me apavorava.
A gente aprende a se proteger do que machuca. Mas ninguém ensina o que fazer quando algo bom aparece e você está tão acostumada com o ruim que acha que é pegadinha.
Então eu fugia. Não fisicamente — eu queria estar ali, era óbvio. Saía com ele toda semana sem pestanejar, quando com outros eu raramente repetia dose. Mas minha cabeça fugia. Cada encontro era como se fosse o primeiro. Ele brincava que era tipo o filme Como se fosse a primeira vez — tinha que quebrar o muro sempre.
E eu construía o muro de novo, toda vez.
Porque o muro era o que eu conhecia.
Tinha uma guerra acontecendo dentro de mim. A parte que achava que amor = dor, que estava preparada pra mais uma decepção. E a parte que queria, de verdade, ficar. Que reconhecia algo diferente ali.
A narrativa da mulher forte e independente que não precisa de ninguém era mais confortável que admitir: “Eu quero isso. E isso me assusta pra caralho.”
Mas ele dizia uma besteira qualquer, ou a gente ria de algo idiota, e eu pensava: “Porra, eu não quero perder isso.”
E não perdi.
Parei de boicotar o que era bom. Parei de esperar o sapato cair. Parei de querer que desse errado só pra confirmar o que eu achava que sabia.
A gente carrega as cicatrizes dos relacionamentos passados, mesmo quando acha que já superou. Elas aparecem no medo de confiar. Na vontade de fugir quando fica bom demais. No impulso de sabotar antes que alguém te sabote.
Reconhecer isso não apaga as cicatrizes. Mas te dá a chance de não deixar que elas decidam o que vem pela frente.
Se você está nessa também — se encontrou algo bom e sua cabeça está gritando que é mentira, que é melhor sair antes — eu te entendo.
Às vezes, a coisa mais corajosa que a gente faz é deixar o que é bom entrar.
Ana Jú