Toda semana era recomeçar

Tinha um padrão. Eu sabia que tinha, mas não conseguia parar.

Toda semana a gente se via. Toda semana era ótimo. E toda semana, quando acabava, eu abaixava a tampa.

Não de propósito. Ou talvez de propósito — mas sem perceber que estava fazendo isso. O muro subia sozinho. Como se fosse reflexo. Chegava segunda-feira e eu estava de volta ao zero.

Ele brincava que era como o filme Como se fosse a primeira vez. Toda vez que a gente se encontrava, ele tinha que reconquistar um espaço que eu já tinha dado na semana anterior.

O engraçado é que eu sei que não era isso na minha cabeça. Eu queria estar com ele. Saía toda semana sem pestanejar — coisa que nunca fazia com outros. Mas minha cabeça não acompanhava. Ficava travada em algum lugar entre “quero” e “não posso deixar isso virar algo real”.

Tem uma diferença enorme entre querer alguém e se permitir ter alguém.

Era como viver num loop. Encontro, conexão, muro. Encontro, conexão, muro.

Olhando de fora, parece exaustivo. Pra mim, parecia normal. Era o único jeito que eu sabia existir perto de alguém que eu queria de verdade. Quanto mais eu queria, mais alto o muro ficava.

Porque o muro protegia. Sempre protegeu.

O problema é que ele continuava aparecendo. Semana depois de semana, sem drama, sem cobranças. Ele não fingia que não havia muro — ele passava por baixo, pelo lado, por cima. E voltava na próxima semana pra fazer tudo de novo.

Demorei pra entender que isso era raro. Que a maioria das pessoas desiste quando a porta não abre na terceira tentativa.

Ele ficava.

Não sei exatamente quando parei de recomeçar. Acho que não foi um momento específico — foi um acúmulo. Toda semana ele aparecia, e toda semana o muro demorava um pouco mais pra subir. Até que um dia ele não subiu.

Não tem música de fundo nem declaração épica. Foi só… uma semana que não foi recomeço. Que foi continuação.

E eu me peguei pensando: quando foi que isso mudou?

Ainda não sei responder.

Ana Jú